Âmbito geográfico e taxonómico

Este atlas inclui as espécies de mamíferos silvestres com ocorrência documentada em Portugal, tanto em meio marinho como em meio terrestre. Para os mamíferos terrestres, os mapas incluem todo o território continental e insular. Para os mamíferos marinhos, incluem-se quer as regiões costeiras, quer a Zona Económica Exclusiva (ZEE) de Portugal. Não se inclui um capítulo especificamente dedicado à distribuição dos morcegos (ordem Chiroptera), por estes terem sido alvo de um atlas recente ao qual pouco teríamos a acrescentar; no entanto, os dados relativos a este grupo estão incluídos no capítulo “Análises biogeográficas exploratórias“.

Sistema cartográfico de referência

Em Portugal continental, os mapas dos registos de ocorrência de cada espécie, bem como os mapas de riqueza específica, estão baseados na grelha de quadrículas UTM (Universal Transverse Mercator) de 10×10 km2. Nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, dada a falta de informação precisa sobre a localização dos registos, o pequeno tamanho e a insularidade destes territórios, as presenças estão registadas por ilha. Para os mamíferos marinhos, os registos de presença nas regiões costeiras e na ZEE representam-se a duas escalas diferentes, que foram consideradas as mais adequadas para cada caso. Para as regiões costeiras utiliza-se, tal como para os mamíferos terrestres, a grelha UTM de 10×10 km2 na respetiva projeção. Para a extensa zona oceânica que engloba a ZEE, os registos representam-se numa grelha de quadrículas de meio grau geográfico de lado.

Uma quadrícula preenchida significa que a espécie foi detectada pelo menos uma vez, no período indicado, nalgum ponto da quadrícula. É importante sublinhar que as quadrículas que aparecem “vazias” nos mapas não representam necessariamente a ausência da espécie correspondente, mas sim a ausência de registos da sua ocorrência na base de dados que aqui foi possível compilar. Para a maioria das espécies, a distribuição geográfica dos registos reflete necessariamente, em parte, a distribuição do esforço de prospeção. Em muitos mapas é possível vislumbrar a associação entre os registos de presença e os principais núcleos urbanos, centros de investigação ou de observação, e vias de comunicação tais como estradas ou rotas de embarcações. Estes mapas (como os de qualquer atlas) devem, portanto, ser utilizados com a cautela e o discernimento necessários, tendo sempre em conta estas limitações. Da mesma forma, as quadrículas com registo de presença antigo e sem registo recente para determinada espécie (ver “Classificação dos registos”) não significam que a espécie desapareceu dali, mas apenas que não se obteve registo mais recente da sua presença, frequentemente por falta de prospeção no terreno. Os dados disponíveis são, portanto, insuficientes para inferir tendências temporais na distribuição das espécies.

A Agência Europeia do Ambiente recomenda atualmente uma nova grelha de referência para o registo de dados de distribuição de espécies, em projeção azimutal de Lambert, com quadrículas de igual área e com várias vantagens sobre a grelha UTM. Se bem que este sistema implica reconhecidas melhorias, a utilização da grelha UTM neste atlas prendeu-se com três motivos:
• tornar a informação geográfica diretamente compatível com a dos atlas de mamíferos de Espanha, bem como com a generalidade dos atlas de vertebrados terrestres ibéricos, facilitando assim o seu uso combinado em análises biogeográficas de âmbito internacional;
• tornar a informação compatível com o atlas europeu de mamíferos e diretamente utilizável no atlas homólogo que está em preparação, ambos baseados numa grelha UTM de 50×50 km2;
• incorporar a grande quantidade de registos existentes cuja localização se refere apenas à quadrícula UTM, não sendo possível passá-los para outro tipo de grelha sem incorrer em erros potencialmente importantes.

Recolha de dados

A recolha de dados baseou-se numa pesquisa exaustiva da bibliografia (incluindo publicações científicas, teses, relatórios e outra literatura), bem como de notícias, fotografias naturalistas, bases de dados públicas – tais como o GBIF, o Biodiversity4All e o iNaturalist – e outra informação disponível na internet. Esta informação foi analisada e depurada de forma a eliminar registos pouco plausíveis (de acordo com os critérios dos autores dos respetivos capítulos), possivelmente causados por identificação ou registo incorreto, quer da espécie, quer da localização geográfica. Houve também numerosos contactos diretos com pessoas, associações e empresas que exercem atividades ligadas à biodiversidade, grande parte das quais contribuiu com os seus próprios registos, tal como os editores e co-autores deste atlas (ver “Editores, autores e colaboradores”).

Em total, para a 2ª edição recolheram-se perto de 115.000 registos de presença de espécies de mamíferos terrestres (mais de 50.000 dos quais confirmados – ver abaixo), e perto de 60.000 registos de espécies marinhas. Há que ressalvar que este valor inclui, quer observações repetidas da mesma espécie, quer registos repetidos da mesma observação, por vezes fornecidos por mais do que uma fonte. Inclui também registos que não foi possível representar nos mapas, por não terem a sua identificação taxonómica ou a sua localização geográfica documentadas com detalhe suficiente para permitir atribuí-los a uma espécie e quadrícula específicas. Considerando apenas os registos com a espécie e a quadrícula ou ilha suficientemente identificadas, reuniram-se mais de 112.000 registos de mamíferos terrestres e perto de 55.000 registos de mamíferos marinhos. Para cada registo de presença, tentou-se obter toda a informação possível sobre a identificação taxonómica, a localização geográfica, a forma como o registo foi obtido (de modo a avaliar a sua fiabilidade – ver abaixo) e a data da observação. Os registos foram depois convertidos à respetiva grelha de quadrículas em território nacional, resultando em mais de 13.000 pares únicos espécie-quadrícula (perto de 7.000 dos quais confirmados – ver abaixo) para os mamíferos terrestres, mais de 4.000 espécies-quadrícula (10×10 km2) para mamíferos marinhos observados nas regiões costeiras, e mais de 2.000 espécies-quadrícula (a escala mais grosseira, 0,5×0,5 graus) na área oceânica que engloba a Zona Económica Exclusiva portugesa.

Classificação dos registos

Para os mamíferos terrestres, os registos de Portugal continental foram classificados como “antigos” – correspondentes a observações feitas na década  de 1990-1999, em que houve um pico na investigação sobre mamíferos no nosso país – ou “recentes” – referentes a observações feitas desde o ano 2000. Estes períodos foram escolhidos de modo a retratar uma distribuição relativamente atualizada destas espécies, tendo em conta a disponibilidade de registos. Para atribuir cada registo a um destes períodos, utilizou-se a data de obtenção indicada pelo respetivo observador; para registos em que esta data correspondia a um intervalo, atribuiu-se o ano final desse intervalo. Registos com a data ausente ou demasiado vaga foram classificados como “sem data”. Note-se que a existência de quadrículas com registo de presença antigo e sem registo recente amiúde reflecte apenas a falta de prospecções recentes da espécie, sendo insuficiente para inferir tendências temporais na sua distribuição.
Os registos recentes de Portugal continental, dada a sua origem diversificada e as diferentes formas como foram obtidos no campo, foram ainda classificados em três graus de fiabilidade – “confirmado”, “credível” ou “inquérito” – de acordo com o nível de precisão e credibilidade da identificação da espécie. Os registos “confirmados” são todos aqueles que foram considerados praticamente inequívocos e incluem:
• amostragem genética, quer invasiva (e.g. sangue, tecido), quer não invasiva (e.g. dejetos, urina, pelo, saliva);
• localização por telemetria;
• os seguintes tipos de registo, quando identificados por um especialista:
– animal vivo (observação direta ou captura);
– animal morto (por exemplo por caça, atropelamento, envenenamento ou causas naturais);
– registo fotográfico (fotografia, vídeo, armadilhagem fotográfica).
Foram consideradas “especialistas” as pessoas e entidades para quem a identificação destas espécies faz parte das suas funções como, por exemplo, biólogos, veterinários, vigilantes de áreas florestais e semelhantes, associações de natureza, técnicos de ecoturismo, ou avaliadores de impacto ambiental.
Os registos de presença não confirmados segundo os critérios descritos acima, mas obtidos por naturalistas (profissionais ou amadores com experiência de campo) e plausíveis tendo em conta a ecologia e a distribuição conhecida da espécie, foram classificados como “credíveis”. Estes incluem:
• indícios indiretos de presença não confirmados geneticamente;
• vocalizações;
• registos sem indicação da forma de obtenção.
Os registos obtidos através de inquéritos à população foram classificados como tal, sendo a sua credibilidade dependente do grau de confundibilidade da espécie para o público em geral. Por exemplo, espécies como o ouriço-cacheiro, o esquilo ou o texugo são geralmente identificadas correctamente pela população, enquanto outras como a marta, o lobo ou o gato-bravo são frequentemente confundidas com espécies morfologicamente semelhantes. Recomendamos, portanto, sobretudo para estas espécies, que os registos baseados em inquéritos se utilizem de forma mais cautelosa e tendo em conta a sua congruência com a área confirmada de distribuição.

[FONTE: Barbosa A.M., Bencatel J., Moura A.E., Sabino-Marques, H. & Álvares F. (2019) Metodologia. In: Bencatel J., Sabino-Marques, H., Álvares F., Moura A.E. & Barbosa A.M. (eds.), Atlas de Mamíferos de Portugal, 2º edição. Universidade de Évora, Portugal]