Análises biogeográficas exploratórias

Padrões gerais na distribuição de registos

Como referimos na “Apresentação” e na “Metodologia“, os dados representados neste atlas são apenas uma amostra não sistemática da distribuição geográfica dos mamíferos em Portugal, baseada (1) num esforço de prospeção de campo distribuído de forma desigual pelo território, (2) na parte dos dados prospetados a que a equipa editorial teve acesso, e (3) no subconjunto destes dados que foi possível atribuir inequivocamente à espécie e à quadrícula utilizada neste atlas. Os mapas apresentados não constituem, portanto, um retrato completo da distribuição destas espécies no nosso país, refletindo antes a distribuição dos registos que conseguimos aqui compilar. No entanto, os mapas deste atlas são de natureza e qualidade comparáveis aos de obras análogas como os atlas espanhol e europeu, que também se basearam na compilação da informação disponível a partir de um conjunto heterogéneo de fontes. Este tipo de obras são um importante ponto de partida para investigar mais a fundo a distribuição destas espécies, começando por reunir e analisar o que se conhece, para depois progredir a partir daí.
Desde que se tenham em conta as limitações inerentes à prospeção não sistemática e à natureza incompleta dos dados, é possível fazer análises preliminares da informação recolhida, nomeadamente em termos da distribuição geral dos registos e das tendências gerais na diversidade observada, bem como das áreas onde mais provavelmente ainda falta informação (i.e., mapas de ignorância). A figura abaixo mostra a riqueza específica observada (medida como o número total de espécies com pelo menos um registo de presença recente, i.e., obtido desde o ano 2000) em cada quadrícula da grelha UTM de 10×10 km2 de Portugal continental. Esta análise contempla também os mamíferos voadores (morcegos, ordem Chiroptera), que não foram incluídos (como espécies individuais) na presente obra por terem sido alvo de outro atlas recente (ver “Metodologia“), mas cujos dados são também muito relevantes para a avaliação da distribuição conhecida dos mamíferos no nosso país.

Na figura abaixo representa-se, para cada quadrícula, o logaritmo do número de registos (incluindo, quer observações repetidas da mesma espécie, quer registos repetidos da mesma observação; ver “Metodologia“, tanto para os mamíferos terrestres apresentados neste atlas, como para cada um dos seus grupos taxonómicos principais. O número de registos (ou o seu logaritmo) é frequentemente utilizado como indicador do esforço de amostragem feito em cada quadrícula. É de referir a semelhança entre os padrões observados para os mamíferos terrestres e para os carnívoros, grupo que teve a maior contribuição para o número total de registos compilados neste atlas, e que tem também um número significativo de espécies no contexto dos mamíferos terrestres em Portugal.

Tendências espaciais na diversidade observada

Como era de esperar, verificou-se uma relação positiva (embora não linear) entre o número de registos e o número de espécies observadas para cada grupo (ver figuras acima), corroborando a influência do esforço de prospeção nas análises de riqueza específica. O esforço mostrou-se enviesado, com maior concentração e números mais elevados de registos em (1) áreas protegidas (particularmente as serras da Peneda-Gerês, Marão e São Mamede); (2) áreas mais acessíveis aos investigadores e naturalistas (circundantes a cidades e vias de comunicação); e (3) outras áreas intensamente monitorizadas, como a zona da barragem de Alqueva, a Serra de Monfurado e outras estações de campo. Também para os morcegos, a distribuição dos dados existentes está espacialmente enviesada: as áreas protegidas e as regiões a norte do rio Douro foram mais intensamente prospetadas, enquanto há extensas regiões sem qualquer amostragem direcionada a este grupo, tais como a margem sul do médio Tejo, o interior alentejano e as serras algarvias.

Tendo sempre em mente os enviesamentos acima descritos, podemos referir que a riqueza observada de espécies de mamíferos regista, em geral, valores mais elevados no norte do país, nas regiões do interior (próximas da fronteira com Espanha), na metade sul do Alentejo e nas serras algarvias. As áreas do litoral entre Lisboa e o Porto, que são mais intensamente urbanizadas e têm menor área de vegetação natural disponível, têm também valores mais baixos de riqueza observada. Estes padrões verificam-se, quer para o total de espécies de mamíferos terrestres, quer para a generalidade dos seus grupos taxonómicos (ver figuras acima).

 

Mapas de ignorância

Todos os dados de biodiversidade estão sujeitos a incerteza, e as boas práticas em investigação científica implicam a avaliação e o reconhecimento do erro de medição. A infra-estrutura sueca para a integração e análise de dados de biodiversidade inclui uma ferramenta premiada, simples e eficaz para a construção de mapas de ignorância. Estes mapas permitem avaliar a incerteza associada aos dados de presença e de riqueza de espécies, através de uma avaliação da distribuição espacial do esforço de amostragem, medido pelo número de registos. Neste atlas, utilizámos os algoritmos contidos nessa ferramenta para calcular mapas de ignorância para os mamíferos de Portugal continental. Estes algoritmos quantificam a ausência de registos de uma espécie de determinado grupo biológico (e.g., ordem) em cada quadrícula, e estimam a probabilidade de essa ausência de registos se dever à ausência da espécie ou à falta de prospeção nessa quadrícula.
O raciocínio por detrás desta ferramenta é o de que os observadores que contribuem para as bases de dados de biodiversidade são especialistas ou interessados em determinados grupos de espécies, tais como as ordens taxonómicas, e não apenas em uma ou duas espécies dentro desses grupos. Adicionalmente, as técnicas de amostragem para uma ordem ou grupo biológico são muitas vezes generalistas e fornecem informação para várias espécies desse grupo – por exemplo, armadilhagem fotográfica para amostrar carnívoros, ou armadilhas para capturar roedores. Portanto, podemos utilizar a informação dos registos de todo o grupo biológico para avaliar o esforço de amostragem realizado em cada quadrícula. Se determinada espécie de roedor não foi registada numa quadrícula onde há um elevado número de registos de outras espécies de roedores, o que indica um elevado esforço para esse grupo, isso diminui a probabilidade de a ausência de registos dessa espécie se dever a uma deficiência na amostragem.
Para o cálculo dos mapas de ignorância (ver figura abaixo), utilizou-se o método da normalização do logaritmo, que é considerado o mais adequado para distinguir localidades com poucas observações daquelas com observações suficientes. Este algoritmo produziu também os resultados mais estáveis e com menos assunções. No entanto, confirmámos que a escolha do método não implicava alterações significativas nos mapas, estando os resultados altamente correlacionados com os gerados pelos restantes algoritmos. Algumas regiões destacaram-se como estando sub-amostradas para grande parte dos grupos de mamíferos terrestres, como a zona ao longo do rio Tejo e o sul do Baixo Alentejo (ver figura abaixo). Nestas regiões, é necessário obter mais registos de ocorrência de mamíferos, quer através de um maior esforço de prospeção no terreno, quer através da inclusão de dados existentes que não estejam aqui compilados.

[FONTE: Barbosa A.M. & Marques J.T. (2017) Análises biogeográficas exploratórias. In: Bencatel J., Álvares F., Moura A.E. & Barbosa A.M. (eds.), Atlas de Mamíferos de Portugal, 1º edição, pp. 207-216. Universidade de Évora, Portugal]